Como complemento da entrada anterior, compartilhamos três
poemas escritos por María Ferreyra, Lidia Rios e Liliana Cabrera[1], poetas que
passaram pelas oficinas de YoNoFui em Ezeiza e que hoje em dia, estando em
liberdade, continuam escrevendo. Como se pode ver no documentário LunasCativas, o disparador que deu origem a esses textos foi o poema Eu fui... de
Luis Cernuda, que disponibilizamos também no
final desta postagem. Os poemas de Liliana Cabrera e Lidia Rios são o
resultado da proposta de que cada participante da oficina dirigida por María
Medrano escrevesse seu próprio “eu fui”. O poema de María Ferreyra corresponde
a uma variação da proposta anterior: já não se tratava de escrever a partir do
que sugere a frase “eu fui”, mas sim da sua reformulação no sentido oposto: “não fui eu”.
Eu fui... Lidia Rios
Eu fui
como a lua em quarto crescente,
que aparece no mínimo enquadramento que propõe ser a minha janela
Eu fui
estranhezas doloridas
que talvez estejam no esquecimento
fragmentadas
unidas por pequenos seres tristes
Eu fui
dançante sobre lampejos
epistolares e sonoros
desejando sair à luz na primavera
Eu Fui
vigía sem desígnio algum,
esgotando lamentos intermináveis
em risos de permanente sonho
Eu fui
estandarte em sacristias sacrílegas
um beijo
por um gole de vinho
um perdão
subsequente do imperdoável.
Não digo
eu não fui
Eu digo
eu fui
continuo dizendo
terei que ser
embora sempre tenha sido
embora jamais deixe de ser.
Yo fui... Lidia Rios
Yo fui
como la luna en cuarto creciente
que asoma en el mínimo recuadro
que plantea ser mi ventana
yo fui
extrañezas dolidas
que quizás estén en el olvido
fragmentadas
unidas por pequeños seres tristes
yo fui
danzante sobre destellos
epistolares y sonoros
deseando salir a la luz en primavera
yo fui
vigía sin designio alguno
agotando lamentos interminables
en risas de permanente sueño
yo fui
estandarte en sacristías sacrílegas
un beso
por un trago de vino
un perdón
subsecuente de lo imperdonable
No digo
yo no fui
yo digo
yo fui
sigo diciendo
habré de ser
aunque siempre haya sido
aunque jamás deje de serlo
Eu fui… Liliana Cabrera
Eu fui
tudo de que me acusam
e também as razões
que você não conhece.
Fui cardo
pedra no seu sapato
coroa de espinhos
lança que perfura o seu lado
fantasma que rondava
a cidade
sem deixar pegadas que o identifiquem,
mas também algo a mais
do que as letras em negrito
do processo.
Ainda que você não saiba
e nem sequer imagine
ou não queira pensar
Eu fui
tenho sido
e não mais serei.
Yo fui… Liliana Cabrera
Yo fui
todo lo que se me imputa
y también las razones
que no conocés.
Fui cardo
piedra en tu zapato
corona de espinas
lanza en tu costado
fantasma que rondaba
la ciudad
sin huellas que lo identifiquen
pero también algo más
que las letras en negrita
del expediente.
Aunque no lo sepas
ni siquiera lo imagines
o no quieras pensarlo
Yo fui
he sido
ya no seré.
Não fui eu... - María Ferreyra
Não fui eu
golpes
chão
algemas
nome
sobrenome
viatura
delegacia
acusação
prisão
sem julgamento
sem provas
e eu juro
não fui eu
Yo no fui... - María Ferreyra
Yo no fui
golpes
piso
esposas
nombre
apellido
patrullero
comisaría
acusación
cárcel
sin juicio
sin pruebas
y juro
yo no fui
Eu fui… Luis Cernuda
Eu fui
Coluna ardente, lua de primavera
Mar dourado, olhos grandes.
Procurei o que pensava;
pensei, como ao amanhecer em sonho lânguido,
o que o desejo pinta em dias adolescentes.
Cantei, subi,
fui luz um dia
arrastado na chama.
Como um golpe de vento
que desfaz a sombra,
caí no escuro
no mundo insaciável.
Fui.
Yo fui… Luis Cernuda
Yo fui
Columna ardiente, luna de primavera.
Mar dorado, ojos grandes.
Busqué lo que pensaba;
pensé, como al amanecer en sueño lánguido,
lo que pinta el deseo en días adolescentes.
Canté, subí,
fui luz un día
arrastrado en la llama.
Como un golpe de viento
que deshace la sombra,
caí en lo negro,
en el mundo insaciable.
He sido.
_____________________
Notas:
[1] Embora o poema da Liliana foi publicado em 2016 como a primeira edição, posterior ao lançamento de Luas Cativas em 2012, publicamos aqui a versão apresentada no documentário, com algumas variações à respeito da de 2016.
* Cabrera, Liliana. 2016. Bancáme y punto. 1a Ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Bancáme y Punto Ediciones.
Eu fui... Lidia Rios
Eu fui
como a lua em quarto crescente,
que aparece no mínimo enquadramento que propõe ser a minha janela
Eu fui
estranhezas doloridas
que talvez estejam no esquecimento
fragmentadas
unidas por pequenos seres tristes
Eu fui
dançante sobre lampejos
epistolares e sonoros
desejando sair à luz na primavera
Eu Fui
vigía sem desígnio algum,
esgotando lamentos intermináveis
em risos de permanente sonho
Eu fui
estandarte em sacristias sacrílegas
um beijo
por um gole de vinho
um perdão
subsequente do imperdoável.
Não digo
eu não fui
Eu digo
eu fui
continuo dizendo
terei que ser
embora sempre tenha sido
embora jamais deixe de ser.
Yo fui... Lidia Rios
Yo fui
como la luna en cuarto creciente
que asoma en el mínimo recuadro
que plantea ser mi ventana
yo fui
extrañezas dolidas
que quizás estén en el olvido
fragmentadas
unidas por pequeños seres tristes
yo fui
danzante sobre destellos
epistolares y sonoros
deseando salir a la luz en primavera
yo fui
vigía sin designio alguno
agotando lamentos interminables
en risas de permanente sueño
yo fui
estandarte en sacristías sacrílegas
un beso
por un trago de vino
un perdón
subsecuente de lo imperdonable
No digo
yo no fui
yo digo
yo fui
sigo diciendo
habré de ser
aunque siempre haya sido
aunque jamás deje de serlo
Eu fui… Liliana Cabrera
Eu fui
tudo de que me acusam
e também as razões
que você não conhece.
Fui cardo
pedra no seu sapato
coroa de espinhos
lança que perfura o seu lado
fantasma que rondava
a cidade
sem deixar pegadas que o identifiquem,
mas também algo a mais
do que as letras em negrito
do processo.
Ainda que você não saiba
e nem sequer imagine
ou não queira pensar
Eu fui
tenho sido
e não mais serei.
Yo fui… Liliana Cabrera
Yo fui
todo lo que se me imputa
y también las razones
que no conocés.
Fui cardo
piedra en tu zapato
corona de espinas
lanza en tu costado
fantasma que rondaba
la ciudad
sin huellas que lo identifiquen
pero también algo más
que las letras en negrita
del expediente.
Aunque no lo sepas
ni siquiera lo imagines
o no quieras pensarlo
Yo fui
he sido
ya no seré.
Não fui eu... - María Ferreyra
Não fui eu
golpes
chão
algemas
nome
sobrenome
viatura
delegacia
acusação
prisão
sem julgamento
sem provas
e eu juro
não fui eu
Yo no fui... - María Ferreyra
Yo no fui
golpes
piso
esposas
nombre
apellido
patrullero
comisaría
acusación
cárcel
sin juicio
sin pruebas
y juro
yo no fui
Eu fui… Luis Cernuda
Eu fui
Coluna ardente, lua de primavera
Mar dourado, olhos grandes.
Procurei o que pensava;
pensei, como ao amanhecer em sonho lânguido,
o que o desejo pinta em dias adolescentes.
Cantei, subi,
fui luz um dia
arrastado na chama.
Como um golpe de vento
que desfaz a sombra,
caí no escuro
no mundo insaciável.
Fui.
Yo fui… Luis Cernuda
Yo fui
Columna ardiente, luna de primavera.
Mar dorado, ojos grandes.
Busqué lo que pensaba;
pensé, como al amanecer en sueño lánguido,
lo que pinta el deseo en días adolescentes.
Canté, subí,
fui luz un día
arrastrado en la llama.
Como un golpe de viento
que deshace la sombra,
caí en lo negro,
en el mundo insaciable.
He sido.
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Notas:
[1] Embora o poema da Liliana foi publicado em 2016 como a primeira edição, posterior ao lançamento de Luas Cativas em 2012, publicamos aqui a versão apresentada no documentário, com algumas variações à respeito da de 2016.
* Cabrera, Liliana. 2016. Bancáme y punto. 1a Ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Bancáme y Punto Ediciones.
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