Nota preliminar.
Começamos com um texto de María Medrano por dois motivos: o primeiro é que o trabalho de María, e do coletivo YoNoFui, nas prisões de Buenos Aires teve um impacto significativo em “Direito à poesia”, um dos projetos de extensão da Unila do qual participam xs autorxs deste blog. O segundo é que o texto ilustra muito bem o valor epistemológico da prisão. A prisão nos faz ver coisas que não vemos de outros lugares de enunciação, obrigando-nos a redefinir e repensar alguns problemas. “Para todas nós” fala do potencial mobilizador de pensamentos e ações das pessoas privadas de liberdade.
YoNoFui surgiu das oficinas de poesia que, a partir de 2002, María começou a dar às mulheres presas na Penitenciária de Ezeiza. Atualmente esse coletivo trabalha em projetos artísticos e produtivos dentro das prisões femininas, e fora, quando elas recuperam sua liberdade.
No link a seguir é possível acessar ao texto original em espanhol:
Segue a nossa tradução para o português.
Para todas nós [1]
Por María Medrano
Faço parte de uma coletiva de mulheres, muitas delas já estiveram presas, outras não. Nossas oficinas de artes e ofícios ocorrem dentro dos presídios femininos de Ezeiza, de La Pampa e de José León Suárez, além das oficinas que acontecem fora, às quais comparecem companheiras que passaram pela experiência da prisão. Somos cerca de cem mulheres que participamos todas as semanas dos diferentes espaços de formação nas nossas sedes em Flores e Palermo, onde também funciona a nossa Cooperativa de Trabalho em Liberdade. Preparar essa paralisação foi a desculpa para iniciarmos um processo que, longe de terminar no 8M, vai se multiplicar com mais força. Estamos costurando juntas algo novo, sentimos essa certeza em nossas corpas. O começo de um novo momento que nos encontra mais fortalecidas e cada dia com mais certeza de que a saída é coletiva.
Como faz paralisação uma mulher que não tem emprego? Como faz paralisação uma mulher que nunca teve emprego e que a coisa mais próxima que teve disso foi na prisão? Essas foram as perguntas que nos acompanharam durante esse tempo em que estávamos elaborando a paralisação. Um primeiro desafio foi conseguir desvincular a ideia da paralisação, tão ligada ao âmbito patronal ou ao sindical, da paralisação dx trabalhadxr assalariadx, que está no imaginário de muitas de nós e, ao mesmo tempo, muito longe das realidades cotidianas que vivemos. A pergunta que atravessou todos os cantos de YoNoFui e foi além dos muros e dos cadeados foi a seguinte: Por que eu faço paralisação? O que eu quero parar na minha vida? Todo esse processo de reflexão se materializou em um manifesto de escrita coletiva que reúne as nossas ideias e experiências.
Como paralisar estando presa? Sobre os corpos das mulheres presas se concentram de maneira brutal um acúmulo de violências históricas. Como pensar, como desnaturalizar e desarmar essas violências? Um primeiro ponto de partida é entender a prisão e o encarceramento como mais um elo do sistema patriarcal. A maioria das presas é pobre e carrega consigo as marcas das violências anteriores ao momento de sua detenção. Como paralisar numa prisão estadual onde não há trabalho e, se há, você é explorada recebendo 16 centavos de pesos argentinos por hora? Como paralisar em uma prisão federal quando esse trabalho é a única coisa que mantém a sua família lá fora, que depende do seu sustento? Como paralisar e não acabar sendo penalizada ou indo parar na solitária? Essas foram algumas das perguntas que nos atravessaram nesses dias. Não temos respostas para todas elas, mas conseguimos sim abrir frestas por onde a vida possa ser imaginada de outras maneiras, ainda que encarceradas. O nosso primeiro gesto de rebeldia foi parar para pensar em nós mesmas, para nos reconhecermos em cada história. Parar para desafiar os códigos da prisão e nos encorajar a construir códigos próprios, mais amorosos, mais nossos. Fazer paralisação para aprender a nos escutar, a nos vermos, a nos cuidarmos, a nos acompanharmos, e a construir algumas certezas.
Pensar a paralisação foi então repensar o poder, as formas de opressão e as maneiras de nos organizarmos. Em meio a essa maré, nos organizamos para resgatar uma companheira violentada, para arranjar para outra um lugar onde pudesse morar; fizemos mudanças, trocamos fraldas, rimos e choramos juntas, e nos abraçamos em praças cheias de corpas que, como nós, lutam por nossos direitos. Um apitaço articula essas experiências.
Em cada unidade, a proposta da paralisação adotou formas distintas. Na Unidade 47 de José León Suárez, as mulheres paralisaram se negando a sair para qualquer atividade, mas expressando os motivos às agentes. Todos os pavilhões aderiram. As palavras de ordem eram “Não queremos continuar negociando os nossos direitos”. Em Ezeiza o boca a boca correu na velocidade da luz: em menos de meia hora a mensagem tinha chegado a outras unidades. Nossa companheira Liliana Cabrera se dedicou a falar com as companheiras de todos os pavilhões em que ela mesma transitou alguma vez. “Reconheço a minha experiência, os mesmos lugares pelos que eu passei nas vozes que escutei do outro lado do telefone” – disse. “Sinto que elas também encontraram o feminismo estando presas e que, como eu, vão se lembrar disso tudo como o pontapé inicial para poder se levantar em outro lugar”. Em um contexto social de desamparo e num lugar tão horroroso como a cadeia, em meio à dor, à solidão e à crueldade, conseguimos construir uma certeza: saber que estamos aqui para todas nós.
[1] NOTA DE TRADUÇÃO
Na nossa versão em português de “Para nosotras” optamos por manter os marcadores de gênero utilizados pela autora ao longo do seu texto, pois consideramos que eles também marcam a presença de um questionamento da ordem social e simbólica que historicamente tem prevalecido no plano da escrita e que incide sobre a representação e o entendimento que xs leitorxs terão acerca de sujeitas e temas abordados; a saber, a livre utilização de x para substituir, em casos específicos, a/e/o. Além disso, o título representou para nós um especial desafio de tradução, já que o português não tem a flexão de gênero para a primeira pessoa do plural, ou seja, não há tradução para a palavra nosotras que transmita esse significado singularmente feminino. Daí, o escolha adotada, “Para todas nós”.
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